sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Onde vai dar?

(Se alguém souber o autor desta pintura, favor informar.)



O Caminho

Onde vai dar essa rua, senhor,
onde não vai carro,
onde não vai ônibus,
onde não vão moscas?
Onde desemboca essa via
onde não há tiros,
onde não há polícia
nem bandidos?
Senhor, por favor, me diga onde dá
essa avenida boa de andar
com o canto dos pássaros
e o farfalhar da música na copa das árvores...
é lá um bom lugar?
tem sorvetes coloridos?
tem bichinhos de pelúcia?
tem praia, sol e morro?
Essa rua de ladrilhos
termina onde? cruza trilhos?
é segura? tem mendigo?
Tem favela? tem abismo?
Não vejo pedras, senhor, onde dá?
Essa rua tem saída?
Essa via tem quebra-molas?
Onde dá esse caminho que eu sigo agora?

E o senhor me responde, com um sorriso:
“Esse caminho leva ao Paraíso!”
Ele próprio se oferece para minha escolta.
Eu me recuso. “Paraíso, é?”, dou meia-volta.



Isa Blue


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ele Veio





ele veio devagar como se
de tanto vagar
virasse um pensamento
ele veio tão lento como se
uma pluma brincando no vento
ele veio assim leve
assim jovem
assim como quem chove
pingo por pingo
assim como quem dança
balé
no umbigo do infinito
ele veio e trouxe rastros
trouxe rasgos de alegria
e contentamento
e trouxe umas histórias
um mistério
e um segredo
ele veio como um espelho
transparente de se ver
ele veio sem veneno
sem perigo de beber
ele veio tantas vezes
e por tantas vezes ficou
ele veio sem buscar
e em mim se encontrou
ele veio sorrateiro
sem amarras pra prender
ele veio por inteiro
sem vestígios de doer
e por tantas vezes veio
cheio de pérolas na mão
que acabou sendo um alento
a um cansado coração.



Isa Blue

terça-feira, 8 de novembro de 2011

AS COISAS DO AMOR



A noite tem cheiro de azul
e eu aqui tentando
fazer aparecer um arco-íris
mas ainda chove
uma chuvinha rala e sem sal
como se feita de madrugadas




Se existe algum lugar
onde eu possa me sentir
feliz no ninho
são os seus braços
que agora estão longes
e eu me abraço sozinho




Tentando compreender
a dinâmica da vida
das idas e vindas
A lógica do amor
mas perco tempo:
amar é não saber




E no escuro dessa noite eterna
só me confortam teus olhos
que sabem das coisas da terra
e podem me guiar tranquilamente
,cegamente,
pela selva que eu escolher




Eu não sei falar das coisas do amor
com o niilismo que o amor me deu
sem explicar o vento
porque o amor não é forma
não é coisa, não é invento;
eu só sei falar do não-amor.


Isa Blue

domingo, 23 de outubro de 2011

DESEJO



Quero que o céu me abrace
que eu me perca
e não volte
Que a vida me abra suas portas
e seus segredos
nas linhas tortas
Quero um sorriso que caiba
uma alegria
por mais passageira que seja
Que o tempo seja infinito
para as coisas que eu sinto
sentir de outras maneiras
Quero o tudo e o nada absoluto
Quero o amor bem perto
e a paixão bem longe
Quero aprender a razão do mundo
que o sentido eu já sei
onde se esconde
Quero um sonho leve e claro
que dê pra levar numa mão
Que o amor não seja raro
e que nunca seja em vão
Quero uma diversão constante
uma sensação surpresa
um soluço conciso
uma solução depressa
Quero uma manhã que me aqueça
uma chuva que me livre
e um coração que esqueça...


Isa Blue

sábado, 3 de setembro de 2011

Massa de Modelar



Falo o que não faço, faço e não posso falar. Quero o que não posso e quero muito mesmo. Tudo o que não digo já foi dito. Tudo que esqueço é porque não devo. Tenho muitos nomes, muita gente dentro de mim. Num dia sou oito no outro, oitocentos. Não gosto do tempo, quero ser tudo agora. Sou mais sincera quando não falo.
Está em mim a dúvida, o espanto, a surpresa. Nada é previsível quando não é racional. Não explico para ser entendida. Sou o que você precisa que eu seja.
Meu olhar dobra na esquina quando está em ponto de fumaça. Não vejo o que olho, mas o que espero ver. O que acho certo é o que tento achar. Sou o que acredito ser.




Isa Blue

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Dando Bandeira...




Outro dia estava aqui numa bronca do mundo e pensei: "Vou pegar Manuel Bandeira e ele me dará uma resposta!". Abri numa página a esmo e lá estava:





A VIDA ASSIM NOS AFEIÇOA


Se fôsse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - "Vem!


"Quer para a bem-aventurança
"Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;


"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"- Olvido imperturbável, onde
"Não restará nada de mim!"


Mas há horas que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.


Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.


E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.


A vida assim nos afeiçoa,
Prende, Antes fôsse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...




Manuel Bandeira.



sexta-feira, 29 de julho de 2011

VIOLÊNCIA E ARTE - BOCA DE LEÃO


vídeo gravado no Rio Rock 'n Blues em 25 de Novembro de 2010.
BOCA DE LEÃO ! Ducaraaaaaaleo !!!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Me diga, Por que estou triste?




Me diga por que estou triste?
será por que eu quis uma felicidade diferente
ou será essa a felicidade diferente
que quis pra mim
e que chamo tristeza?
Por que estou triste?
Talvez eu saiba e não queira acreditar
Ou talvez você saiba e saiba que eu sei
e ache que não é preciso mais me contar
Por que estou triste
não é problema meu, seu e de ninguém
Não me fale que estou triste por você
que nem só você é você só.
Estou triste porque você é só um
menos quando estamos em nós
e somos todos um só
tão nossos, tão ossos, tão sós.




Isa Blue.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A Língua do Corpo





Não adianta negar
que fiquei sonhando
 sem sono
que fiquei brincando no escuro
 com as sombras da vela
derretendo as paredes
que fiquei querendo
 voltar no tempo
que debaixo do cobertor
 tinha uma língua de fogo
e dentro do meu amor
 tinha uma outra linguagem
 que o corpo quer falar
 e o coração ouvir
que o cheiro do incêndio
é incenso ou insensato
e que tinha o seu retrato
 em cada toque que não vi
mas não nego
 porque o amor é cego
mas cheira, ouve, lambe
 e sente muito bem.



Isa Blue.

domingo, 12 de junho de 2011

em eclipse



Se estou sentindo frio
é o vento lá fora

Porque eu me encontro assim
sem casaco, sem roupas,
só poucas
coisas
me vestem

Meu coração está aquecido
e leve in love

Me leve mas não me deixe
Me forte
Me furte
os sentidos

E antes que me esqueça
Fique por perto
Fique sempre por perto!

Não me perca
Porque eu não quero
que isso aconteça

Eu peço um pouso impossível
que possa parecer sincero
Mas não se espante

As retas
às vezes são um pouco tortas
mas não me importa
eu tenho portas
a serem abertas

E tenho rezas
guardadas no fundo da gaveta de minha avó
que vão nos salvando

Pois somos imbatíveis
imperdíveis
intransferíveis
e inefáveis

Porque o amor
é tudo que possa
que passa
que roça
o amor não é só o sol
é também a lua
e a lua
é toda nossa.


Isa Blue

domingo, 15 de maio de 2011

concisa




me sinto assim, meio sem.



Blue

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Céu da Boca



"Não há nada mais gostoso
que dançar balé com a língua
no palco da sua boca.
O limite é o céu."




Isa Blue

domingo, 10 de abril de 2011

RELANÇAMENTO ZONA SUL DA BANDA BOCA DE LEÃO

Nesta segunda-feira, dia 11, vamos incendiar a Zona Sul com o som ácido e debochado do BOCA DE LEÃO !!! A partir das 21h no Conversa Afinada de Ipanema (3° andar do Conversa Fiada).

bocadeleao@bocadeleao.com.br
(LISTA AMIGA só até às 16h.)




sábado, 12 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Meu cãozinho Nabunda

Quem nunca ouviu a piadinha do cachorro Nabunda? Essa é histórica e achei esses dias nas gavetas.



Meu cãozinho Nabunda
(Isa Blue)

Nabunda é legal!
Nabunda é meu cachorro!
toda vez que eu saio eu tenho que levar Nabunda.
(Nabunda é demais!)

Nabunda, um vira-latas,
não larga o seu osso.
Toda vez que eu saio eu tenho que levar Nabunda com seu osso.
(Nabunda com seu osso!)

Nabunda é meu amigo,
muito forte,
e tem um focinho comprido...
(É, Nabunda.)

Mas num dia muito triste
fui passear de barco,
o barco resolveu de afundar
e Nabunda o que é que eu faço?
(Nabunda, o que é que eu faço?)

Deixo Nabunda,
Levo Nabunda?
Será que Nabunda bóia?
Eu quaaase me esqueci que Nabunda nada.
(Ahhhh Nabunda nada!)

Nabunda tem duas bolas de quicar
e um pedaço de pau
que ele gosta de enterrar...
(É, Nabunda.)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cortinas - Raul de Barros Jr.

TRAGO NA BANDEJA A CARNE,
OS OSSOS, A VITÓRIA POSTA,
O SONHO, O RESULTADO DAS APOSTAS,
TUDO PARA O QUE A LÓGICA VIROU AS COSTAS,
TODAS AS POUCAS, TODAS AS ROUPAS,
E TODAS AS OUTRAS
BOSTAS.






ISA BLUE

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

ODE à Cerveja







ODE à cerveja

Todo mundo tem
uma desculpa pra beber
uma queixa do garçon
uma história de bar
e, aparentemente,
todo mundo tem
um motivo subliminar:
a patroa foi embora,
fugiu com seu melhor amigo,
levou as crianças,
deixou as contas,
seu chefe te odeia,
o vizinho te processa,
pra arrumar namorado
nem fazendo promessa,
tá devendo a deus e ao mundo,
e, por sinal, vai pagar fiado
ou quem sabe o dono do bar te interessa?
seu filho disse que é viado!?
sei lá, mil coisas...
cabeça cheia, vida vazia,
bebe pra tomar coragem
de paquerar aquela menina,
tá sem emprego,
tá sem perspectiva,
todos os bêbados
têm uma visão 'meio torta' da vida...
Esquece!
Eu bebo porque eu gosto!
E nada no mundo
me faz tão feliz
quanto ter o meu copo
rodeado por copos amigos,
meu sorriso embriagado
fica mais bonito,
as piadas, hilariantes
as pessoas, sociáveis e interessantes.
Distribuo passos dançantes
em espaços incalculáveis.
Qualquer um fica mais atraente.
A cerveja aproxima a gente!
Na falta de um amor,
um compromisso
ou um bom filme na televisão,
ter um bar ao lado de casa
é a salvação!
Por isso, parem com a hipocrisia!
Blasfemando contra a cerveja;
câncer disso, doença daquilo...
Ora, veja:
cerveja emagrece pois mata a fome,
tem menos calorias que um iogurte,
é feita de cevada, então é natural
(quase uma barrinha de cereais!)
mais saudável que um copo d'água
pois não contém coliformes fecais...
Me tome por exemplo;
eu bebo e não tenho nada!
tem gente que não bebe e está morrendo.
Cerveja não faz mal,
o que faz mal é a ressaca.
Por isso é aconselhável que se beba todos os dias,
porque muito sangue no seu álcool
às vezes irrita.
E você nem precisa dizer
que bebe só porque gosta
Arrume uma desculpa
e se junte à nossa roda!


Isa Blue, sempre no bar mais próximo de você!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Tragédia Romântica



Pra não me lembrar que existe algo a mais, esqueci quem sou, esqueci minhas dores, meus sonhos, meus amores. Deixei pra trás os projetos nas gavetas. Eu me fechei, me tranquei no quarto e esperei essa tal de cura pelo esquecimento. Pelo escurecimento. Memórias não tenho.


Pra não lembrar que existe algo profundo, parei de ver filmes com histórias de amor, e de me cobrar finais felizes. Parei de acompanhar novela das oito, das sete, das seis, das quatro. E só não larguei os livros, porque era fácil virar a página. 


Pra não lembrar que existe algo antigo pulsando, com cheiro de contos-de-fadas, tão mofados, numa espécie de infância da alma, varri pra debaixo do tapete as farpas das flechas, os estilhaços do espelho, meus cacos em mosaico. Falhas, fatos, farrapos. Esqueci os detalhes, apaguei os vestígios. Guardei todos os mortos no fundo do armário.


Matei meus amores, minhas mágoas, meus votos. Pedi o divórcio e acabou.
Enterrei meu coração e escrevi um epitáfio:


Aqui jaz quem nunca soube - e por isso nunca esqueceu - o que era o amor.



                                      Isa Blue.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O caminho da pedra







On The Rocks




Esse não é o tipo de pedra
que se vê com um olhar
olhe mais de perto
pode ser jabuti
ovo de passarinho
cocô de bicho
ou um ponto
no meio da frase.
Esse é o tipo de pedra
pra se cheirar
pegar na mão
dixavar atrás de semente
grão de areia que diga
quantos anos tem a pedra
levar à boca
ver se derrete.
Esse é o tipo de pedra
que emerge do caminho
apontando os meios
e as meias sujas de terra
o mundo mexe com ela
o mundo muda e ela
muda
se quebra se cresce
e vira parte de tudo
como tudo que morre
e se comove
como tudo que vive.
Essa pedra que é só uma pedra
que sonha
poderia ser eu ou você
se a evolução quisesse
se a gente soubesse
se evoluir apra pedra
até não saber mais
o que
onde
e todas as perguntas irritantes
que as pedras não se fazem
elas mudam
mudas
e jazem.






Blue, a colecionadora de pedras.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sobre Janelas E Coisas Que Servem Pra Gente Suspirar...



No Cabaré da Poesia - CATETE
(Evento produzido por Cairo e Denizis Trindade. Gravado por Daniel Trindade.)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Queria ser um poeta...







Queria ser um poeta do século passado

Queria escrever um poema brega
falando das árvores, das flores
falando do vento, das cores
da manhã e de tudo que eu não vejo nesse momento
Queria um poema cego
surdo, mudo, careta
Um poema sentado num banquinho
olhando a praia de Copacabana
Queria nesse momento escrever sobre o mundo
O mundo que não me vê
O mundo que não entende
por que eu não posso escrever
Queria rimar amor com dor, ar com ar
seguir a técnica, fazer um soneto
usar palavras difíceis pra encher linguiça
e me esquecer ao que vim
Queria ser um velho poeta caído do século passado
empoeirado numa estante sendo comida de cupim
tocar meu violão dizendo paz&amor
ouvir quê dizem as rosas do jardim
Queria por um instante dizer nada com nada
não escrever poemas, apenas jogar palavras
chamar poema de poesia, se fingir de alienado
procurar uma rima sem contexto, sem pecados
Queria ser um poeta chato, maçante, intelectualóide
Que entrou pra academia e se mumificou naquela poltrona
e nunca levantou a voz pra ler um poema
e nunca gritou pelas ruas de madrugada
Que nunca amou com exagero e intensidade
que nunca chutou uma lixeira por revolta
Que nunca bebeu uma cerveja no gargalo
que nunca fumou chá de saquinho pra ver se dava onda
Que nunca sentiu o poder de conversar com Iemanjá no meio das ondas
que nunca fez uma garrafa de poesia e jogou ao mar
Que nunca soube o que era arte
que nunca fez nada visceral além de cagar
Que nunca escreveu um palavrão que nem mesmo ousou falar
que nunca se perguntou se devia continuar
Que nunca quis se matar
que nunca saberá da minha existência
que se souber, vai se incomodar
Queria eu ser um poeta de merda dizendo mentiras
fingindo que a vida é bela só pra variar
Dizendo que estes revolucionários não sabem o que é arte
dizendo que a poesia morreu no século passado
Mas não sei por que diabos eu gosto de ser jovem
Ainda que estes anos me acordem dia após dia
Eu me conformo em ser um destes revolucionários
que não sabem fazer poesia!


Isa Blue
Ele tinha uma alegria inteira que pulsava dentro
e explodia por todos os poros
Uma agitação, uma inquietação de sorrisos
e me mostrou que não se deve ter medo
de cair e nunca mais levantar
porque a gente já sabia voar
Era que a gente tinha uma chave mágica
pra lidar com essas coisas da vida
Era só a gente sorrir pra noite
que enchia as ruas de poesia
Ele tinha uma alegria inteira que completava a minha
e me ensinou que a vida é simples quando a gente deixa ela sorrir.



Isa Blue (a um pássaro secreto)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Por onde a gente vai...


A PASSAGEM
(Ledo Ivo)

Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Hino do Brasil (Reformulado)

Essa é uma letra minha em homenagem a todos os brasileiros, principalmente aos que Vêem.


HINO DO BRASIL - Reformulado
(letra: Isa Blue)

Ouviram-me pirando nessas páginas
Um corpo cai sem um braço retumbante
E sem a liberdade, ensaio fútil
Brincou de ser a pátria figurante

Se o senhor da minha vontade
conseguirmos subornar com carros-fortes
Pelo meio, a liberdade
De um jeito decadente e sem suporte

Ó Pátria armada,
Idiotizada
Salve! Salve!

Brasil, um sonho enterro, em solo esquecido
De inveja e de ganância o olho cresce,
Se em teu feioso céu cinzento e ríspido
A miragem do Real desaparece

Diante dessa nossa "esperteza"
É pelo esporte que cometo o roubo
E o meu futuro é pela safadeza

Terra roubada,
Ninguém te viu
no meu Brasil
com notas falsas!
Desvio deste solo a um mais gentil
E vão
pra puta que o pariu!


Deitado vendo TV eu me esqueço
Do som dos gritos vindos lá do fundo
Censura no Brasil fodão da América
Alienados no Terceiro Mundo.

Mas na Terra já sofrida
Seus tristonhos filhos brancos em TV à cores
Nossos jovens não têm vida
E nossa vida é a Bolsa de Valores.

Ó Pátria armada,
Idiotizada,
Salve! Salve!

Brasil de amor eterno, cego e cínico
A lábia que ostentas do meu lado
E diga o velho agouro, o céu em chamas
Paz pr'um futuro povo sem passado.

Mas se esquece em dar justiça à massa pobre
Verás um filho teu jogado à rua
Com fome, como escória, à própria sorte.

Terra odiada,
Entre outras mil
É a mais hostil
Mais enganada!
Teus filhos estão mortos, mãe gentil
Pútrido Brasil!








quinta-feira, 28 de outubro de 2010

De Cara

(figura extraída do livro 'Morte e Vida Severina', João Cabral de Melo Neto)


De Cara


Não é nada,
Só essa cara amarela
do dia que passa
Corrói minha calçada
esse sol
que não tem mais nada a fazer
do que ficar esquentando minha cabeça.
Não é nada,
É só essa chuva fina
esse dia frio
Essa cara azul
de quem venta
Que não tem moral
pra me cobrar sorrisos.
Não é nada,
É só o meu caro vizinho
que anda virado
e não pára,
e resolve discutir na madrugada,
e atira coisas no chão,
na parede, no teto,
e dá descarga
às seis da manhã.
Não é nada,
É só um passado pesado
atrelado feito mordaça
É só um futuro negro sem cara
erguido sobre uma base quebrada.
Não é nada,
É só ter que acordar todo dia
e viver uma vida emprestada
e pagar juros sobre juros
pra se deteriorar na rotina
ou numa cara garrafa de cachaça.
Não é nada,
É só a minha cara amarrada
e meu senso-crítico
que me impedem de ser aceita
e sorrir pra qualquer mancada.
Eu não acho a vida perfeita
e não acho a vida sem graça,
mas se a vida tivesse corpo,
com toda certeza,
já teria levado
um tapa na cara!



Isa Blue

sábado, 23 de outubro de 2010

Coração burro...




Coração estúpido,
só gosta de quem não gosta da gente
gosta de sangrar, de sofrer, de sentir
o sentimento mais puro do mundo
é aquele que vai nos destruir.

Coração burro,
não ama ninguém
ama todo mundo
Tantas penas, tantos planos
tantos sonhos que se foram
e as marcas que deixaram
ainda doem lá no fundo.

Coração infeliz!
Quem mandou você viver
quem mandou você existir?
Você nasceu pra eu morrer
e tantas vezes viu meu fim

Coração idiota!
Mais burra sou eu que te ouvi
e te dei corda
Por sua causa sou um farrapo
por sua causa sou um alcoólatra
Sei que vou morrer só
e você ainda vai rir por último
no fim da luta

Coração filha da puta!


(Isa Blue)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"A gente faz amor por telepatia..."

(...pela falta de identificação, doa-se este poema. rs*)





Amor por Telepatia


Desafio de imaginar
seus fios de cabelo
roçando em minhas coxas
suas mãos presas fáceis
em meus seios
o suor nas suas costas
molhando meus dedos.

Desafio de imaginar
como é seu corpo
seus pêlos seus pentelhos
seu pau e seu gosto
e que gosto tem o seu gozo
e onde estarão seus dedos
e como será seu sexo?

Desafio de imaginar
sua pele colando
como seus olhos me comem
seu cheiro de homem
sua carne macia
seus ruídos seus gemidos
se me bate ou me beija
se sou puta ou deusa
se me fode ou faz amor
...seja como for.

Desafio é de esperar
E você, será que já pensou?
será que se masturbou?
será que gozou na minha cara?
na mesma cama que faremos amor
quem sabe já se concretizou
a nossa primeira transa
imaginária.


Isa (red) Blue

Chave de Sol





Chave de Sol
(Isa Blue claro) rs

A manhã me esbarrou sorrindo
Enfim tudo ficou claro
Tinha um raio de sol particular
Amanheci do lado de fora
E do lado de dentro
Aurora.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ZINE

Pega aí meu zine, pra quem não tem. O próximo está vindo! (Para ampliar a imagem é só clicar em cima.)


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ciúmes




Oi? Ciúmes? Tenho sim
Ciúme de você e de mim
Ciúme da sua cama vazia
e ciúme da minha
Ciúme de quem pode te olhar
todos os dias
Ciúme do olho-mágico
da sua vizinha
Ciúme do bar
em que você fica
Ciúme do olhar
das outras meninas
Ciúme da cerveja
no seu copo
Ciúme do suor
no seu corpo
Ciúme de um amor
do passado
Ciúme dos retratos
no seu quarto
Ciúmes? Tenho e não demonstro
são só monstros
atordoados
pelos nossos encontros.




Isa Blue

POEMASBR - ISA BLUE

sábado, 2 de outubro de 2010

Sexta À Noite




Eu acredito na sexta-feira à noite como acredito na Ave Maria
como acredito no Hare Krishna
como acredito na igreja batista
Eu acredito na sexta à noite como um conto-de-fadas
como uma história que se torna real
como a felicidade roubada
Eu acredito na sexta à noite como a voz do silêncio
como o sucesso dos ideais
como o amadurecimento
Eu acredito na sexta à noite como uma pornochanchada
eu subestimo os seus cardeais
visito almas penadas
Eu acredito na sexta à noite como a voz dos funerais
como quem decreta quem está certo
como quem recita imortais
Eu acredito na sexta à noite
como a voz do amor
como a voz ultravioleta do eterno pavor
Eu acredito na sexta à noite como a hora sem alcance
onde tudo pode e tudo acontece
onde tudo está a lance
Eu acredito na sexta à noite como à Bíblia que diz
que todo mundo tem livre arbítrio
onde o mundo é feliz.





Isa Blue

Dois rimam




Se era um jogo, nenhum de nós sabia.
Se éramos manipulados por questões diversas, isso era explícito.
Ele insistia em carregar nos ombros
as dores de que proviam humanidades
Ela insistia em carregar tristezas
e culpas em seu calibre apático.
Eles eram feitos um para o outro
disso se tinha certeza
ele era feito de saudades
e ela, de tristezas
Um era louco por feridas
outro, por desencantos,
um se perdia por inteiro
outro amarrava o seu canto
mas dois eram inteiros
quando a voz balançava em seus prantos
Dois eram tiros certeiros
quando um condizia seus encantos.


Isa Blue

Questão de Escolha




Eu sei a sua verdade
porque seus olhos são janelas
onde me debruço
sob qualquer sinal de aviso
Eu sei a sua amizade
porque me rendo e te rendo
por vezes me enredo
nas tuas encostas
Eu sei a diversidade
porque te aceito
assim como me vens
sem múltiplas desculpas
Eu sei a sinceridade
porque te olho e me vejo
com simplicidade
diante de tantos desejos
Eu sei a simplicidade
porque é você
a simples escolha
de ser quem você é.



Isa Blue
(sob influências)